quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Moção pela gestão pública da água e dos resíduos

Na reunião pública descentralizada realizada ontem, dia 19 de fevereiro, em Águas de Moura, no âmbito da Semana da Marateca, a Câmara Municipal de Palmela aprovou, por maioria, com um voto contra do Vereador do PSD, a seguinte moção pela gestão pública da água e dos resíduos:


«A gestão da água e dos resíduos é matéria de grande impacto para o Poder Local, para as populações e para o País. O Governo prepara-se para lançar nova legislação, designadamente, os novos estatutos da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), e para privatizar a Empresa Geral do Fomento (EGF), sub-holding do grupo Águas de Portugal para o setor dos resíduos.

No caso da ERSAR, a legislação aprovada pelos partidos que integram o Governo prevê dotar esta entidade com poderes vinculativos para fixar as tarifas dos sistemas municipais de água e saneamento, atribuindo-lhe poderes de aplicação de multas e cobrança coerciva. Este diploma será remetido, agora, para promulgação do Senhor Presidente da República. Algumas das alterações aos estatutos da ERSAR vêm usurpar aquelas que são competências dos municípios, sendo este mais um forte ataque do Governo à autonomia do Poder Local e aos interesses das populações.

No que diz respeito à Empresa Geral do Fomento, a sua privatização foi aprovada em reunião do Conselho de Ministros do passado dia 30 de janeiro e deverá estar concluída no final do primeiro semestre do próximo ano. A importância estratégica da gestão dos resíduos implica que a gestão desta empresa se mantenha no setor público, enquanto garante da salvaguarda do interesse público. De igual modo, este primeiro passo para a privatização de uma empresa do grupo da esfera das Águas de Portugal é um primeiro teste do Governo para futuras privatizações neste domínio, sendo que, a prazo, o objetivo do lucro irá sobrepor-se à qualidade do serviço público que é prestado aos portugueses.

A generalidade dos municípios portugueses tem contestado esta escalada legislativa de afronta às suas competências, nomeadamente, as que afetam a gestão da água e dos resíduos. A Associação Nacional de Municípios Portugueses, o Conselho Metropolitano de Lisboa, através de uma posição conjunta dos Municípios da Área Metropolitana de Lisboa e da Associação de Municípios da Região de Setúbal, manifestaram parecer desfavorável a esta pretensão do Governo.

Os Municípios da Península (Alcochete, Almada, Barreiro, Moita, Montijo, Palmela, Seixal, Sesimbra e Setúbal) aderiram ao sistema multimunicipal da AMARSUL num quadro em que o capital social se repartia entre o Estado (51%) e os Municípios (49%). Ao vender a EGF, detentora desses 51% do capital social, a um grupo privado, o Governo altera as condições e os pressupostos que estiveram na origem da adesão dos Municípios, sem respeito pelos seus parceiros acionistas e principais clientes.

Como se tal não bastasse, o Governo está disponível para que também os Municípios cedam as suas participações aos grupos privados interessados, mas não considera a possibilidade dos Municípios poderem adquirir os 2% necessários para se tornarem detentores da maioria do capital social (51%).

Considerando o atrás exposto, a Câmara Municipal de Palmela, reunida em sessão pública a 19 de fevereiro de 2014, delibera:

- Rejeitar, dando parecer negativo, o projeto de privatização da Empresa Geral de Fomento, S.A.;

- Rejeitar, dando parecer negativo, o Projeto de Regulamento Tarifário do Serviço de Gestão de Resíduos Urbanos;

- Reafirmar a defesa intransigente dos serviços públicos de excelência no abastecimento de águas, saneamento básico e gestão de resíduos;

- Reafirmar a autonomia e insubstituível papel do Poder Local democrático no serviço público de qualidade às populações e no desenvolvimento de Portugal.

Mais decide enviar esta Moção:

    - a Sua Excelência, o Presidente da República

    - a Sua Excelência, o Primeiro Ministro

    - a todos os Grupos Parlamentares com assento na Assembleia da República

    - a todas as Câmaras e Assembleias Municipais da Área Metropolitana de Lisboa

    - à EGF – Empresa Geral de Fomento

    - à AMARSUL

    - à ERSAR.»